Menina não é gamer e celular não é jogo

Saiu mais uma pesquisa Gamer Brasil 2017. A pesquisa pode ser encontrada em https://www.pesquisagamebrasil.com.br/pesquisagamebrasilgratis

Ela trás um monte de informações interessantes sobre o perfil do gamer brasileiro. E algumas dessas informações dão uma tremenda rasteira no senso comum. Será que o mundo gamer brasileiro é como nossos gamers acreditam?

A pesquisa revela um quadro que muitos nerds jamais imaginaram que fosse possível: hoje, a maioria dos jogadores é MULHER. Pronto. Toma na cara. As gurias estão jogando. E jogando muito.

Ah, claro que isso não seria divulgado sem causar o esperado tumulto! Muitos homens reclamaram. E como reclamaram.

Ah, a maioria é celular, é candy crush, não vale. Ninguém é gamer jogando candy crush.

Não vale porque?

Games na idade da pedra

Eu sou da época do Atari, do Nintendinho, Snes, Mega Drive. Uma época de jogos simples. Jogos voltados para o público infantil.

Hoje em dia, você consegue ter TODOS os jogos dessas plataformas em um celular, se quiser. Só o IOS, plataforma da Apple, já tem mais jogos que TODOS os consoles juntos. E suspeito que o Android, se já não passou essa marca, vai passar logo.

Quando eu comecei a jogar, a maioria dos jogadores eram crianças. Mas esse quadro mudou drasticamente. O público cresceu. Envelheceu.  Hoje, a maior parte do público de jogos é de jovens e adultos.

Apesar de o público de jogadores ser composto quase totalmente de adultos, ainda lidamos com afirmações preconceituosas como “jogo é coisa de criança”. E isso incomoda muitos gamers. Muitos ainda tentam se justificar (como se isso fosse mesmo necessário). E como esse mesmo jogador se comporta diante da notícia de que mulheres estão jogando?

Desmerecimento. Preconceito. Agressão. Assédio.

O principal argumento deles é de que “jogos mobile não tornam ninguém gamer”. Será mesmo?

Pra começar, vamos ver como o mercado atual está distribuído:


Opa! Parece que teremos que ignorar muitos jogadores e jogadoras. Tem gente jogando até em TV! Portáteis? Ora bolas, Portáteis não fazem jogadores!

Com tantos jogos, o mobile ainda não se qualificou como plataforma gamer?

O “gamer” idolatra o Game Boy, o Nintendo DS, PS Vita… Esses portáteis podem ser game, mas celular não? Por que? Porque celular serve pra mais coisa? Vamos excluir os PCs então? Celular é só um computador de mão, jovem.

“Ah, mas os jogos são fáceis, são casuais”

Vamos excluir todo o Nintendo Wii então. Vamos excluir os jogos pra Kinect. Vamos excluir boa parte dos jogos dos consoles mais antigos. Vamos ignorar jogos indies. Só é jogo aquilo que VOCÊS aprovam. Só é Jogo aquilo que o Comitê Revolucionário Ultra Jovem considera como jogos. Vamos transformar uma das maiores conquistas da indústria, a accessibilidade de jogos pra todas as idades e públicos, em algo a se envergonhar.

Meu caro machista inseguro,

Meu amigo, o Candy Crush tem mais complexidade e dificuldade que a maior parte dos jogos lançados até a geração do SNes e Mega drive. E tem um tremendo fator de replay, coisa raríssima de se ver nesse mar de jogos de hoje. Quantos jogos você conhece que mantém o público entretido por ANOS? Quantos jogos você conhece fatura mais de um BILHÃO de trumps em um ano? E faz isso por anos seguidos?

Essa reclamação de que “meninas não são gamers” é uma babaquice sem tamanho. São crianças reclamando que invadiram seu clubinho. Agora eles não são mais especiais. Não tem mais a exclusividade do selo GAMER.

Cresce, pivete. Muitos de vocês não têm autoridade sequer pra decidir a própria vida, quer decidir quem é ou quem não é gamer? Querem decidir o que milhares de empresas, milhões de profissionais, bilhões de consumidores podem ou não chamar de game?

Aceite. O mundo mudou. Nem maioria vocês são mais. Jogos são pra todos. E não é porque você não gosta de um estilo que ele deixa de ser jogo.

Aceita que dói menos. E passa menos vergonha.

E meninas, se alguém exigir sua habilitação gamer, por favor, entregue a ele essa carteirinha.

  • Ted Bunny

    Gamer: que joga até esfolar os dedos.
    Player: que joga casualmente.

  • mhfon

    Se eu não considero o usuário do mercado mobile como gamer, eu sou machista? Não mesmo. Eu não ligo se quem joga em celular é homem ou mulher, simplesmente não acho que se pode colocar na mesma classificação aqueles que investem em consoles e PCs com os que ficam no celular. Jogos de celular, no geral (e não é preciso ser gênio pra saber isso), além de serem extremamente simples, são usados muito mais como uma tarefa subsidiária (como esperar um atendimento em um banco) do que como um hobby de verdade. Pra mim, jogador de mobile é um gamer casual, no máximo, mas não um gamer. É por último: vejo que jogos indie foram comparados com jogos de celular, mas mais uma vez ouso discordar. Via de regra, jogos indies são games complexos e/ou jogos que buscam enaltecer o aspecto artísticos dos jogos, o que não se pode dizer dos games mobiles, geralmente dotados de extrema simplicidade, genéricos.

    • Marina Ribeiro

      A questão é quem definiu que Gamer não pode ser casual? Ou não pode jogar em plataforma como da do Celular?
      A pesquisa delimita entre os Gamers níveis de ‘devoção’ a forma de tratativa do jogo. De acordo com a pesquisa, o que você coloca como Gamer é o Gamer Hardcore.
      Não acho que seja machista você segmentar o mercado de jogos. Acho, talvez, limitante (não me entenda mal, não é uma ofensa). A simplicidade dos jogos nunca impediu nada e a simplicidade ou grau de dificuldade é tão subjetiva.
      Tenho um amigo que não consegue dar dois pulos no Mario ou Sonic. Mas é o melhor Frost Mage que eu conheço no WoW. Joga FF15 como ninguém…

  • Ricardo Fleck

    @mileniados:disqus @mile eu tenho uma dúvida, achei o post relevante e interessante, mas tem alguma outra pesquisa com os valores investidos em média por perfil ou algo quantificado nesse sentido?

    E algum modelo de personas baseado em genero, ou perfil de jogador? acredito que como vocês postaram e se informaram por essa pesquisa talvez tenham alguma referencia nesse sentido

    • Ricardo Fleck

      Eu pergunto por que por exemplo no mercado mobile, especialmente no free to play, ao menos fora, o que importa não é quem é maioria, e sim quem são as baleias do mercado, por exemplo se uma maioria de publico é feminina mas as baleias são homens, ainda assim a persona principal onde o jogo projetado, vai ser masculina… já que não pagantes servem primariamente pra inflar o publico e atrair mais baleias em f2p